
Evitei ao máximo em falar de música por aqui, mas quando me deparei com a programação do Festival Quintal PE, que acontece no próximo dia 25 de Abril, no Centro de Convenções, minha reação foi irremediável. Ah não! Meu tino respondeu. Pois bem, evitava em falar sobre o assunto já que compartilho com os dois lados da “morta-fomisse” dos músicos e do público pernambucano.
Vamos à analise dos fatos:
Primeiro, vou analisar enquanto músico. Vendo a notícia do festival no site do Recife Rock, tive a notória certeza que desencadeia todo o processo de escravidão dos músicos pernambucanos. Na matéria, o cidadão discorria sobre o evento. Informou as atrações, o lugar e o preço dos ingressos. Priu. Logo abaixo, no espaço para comentários, a carapuça dos pernambucanos abraçadores de maracatus e afoxés caiu. Nesses comentários, vários diziam “R$ 50 e R$ 25 é muito caro, todas as atrações podemos ver de graça”, Eis a valiosa exclamação da moça.
Ora, ela, a moça que escreveu, mais do que ninguém tem toda razão. As “grandes atrações” da cena atual de Pernambuco tocam de graça todos os anos em grandes eventos produzidos pelo poder púbico. E o calendário é extenso, envolve datas comemorativas, festas. feriados, festivais e eventos políticos (desde que não tenham esse caráter explicito). Então aqui começa onde quero chegar. Sob esses dois aspectos, o do ingresso caro (comparado com de graça, até R$2 é caro) e a vida e as contas do músico. Ora, se a banda só tocar em eventos públicos irá receber dinheiro duas ou três vezes por ano, e ainda com um bom desconto dos impostos, além do prazo indeterminado para o recebimento. E se os conjuntos forem fazer outros shows têm que cobrar R$ 10 de ingresso, no máximo.
Ai mora o primeiro problema. A ditadura do dinheiro público. Em Pernambuco bandas só gravam discos com auxilio de dinheiro público, editais da Fundação de Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Prefeitura do Recife (CIC), entre outros. E não falo só de discos, esse dinheiro também sempre bancou turnês pelo Brasil ou pelo exterior de “grandes artistas” e também a gravação de clipes e realização de eventos como o Abril Pro Rock (esse ai, nesse ano está chorando porque vai receber apenas R$ 300 mil do Estado. Coitado).
E agora José? Quem não entra na fila do dinheiro público como faz? Um amigo, me falou que dessas bandas nenhuma é de Pernambuco. Eu respondi, calma amigo, mas escutei seus argumentos: A Nação Zumbi, faz tempo que não mora por aqui; Mombojó e China, já foram pra SP voltaram, foram de novo e hoje só sobrevivem por conta do Del Rei (projeto paralelo das duas bandas); o Bonsucesso, hoje é formado só por Roger Mam, o resto da turma ou mora pelos lados de lá, ou vão se juntar só pra fazer esse show; Dj Dolores e Naná, nem vou dizer nada né, esses são “artistas do mundo”; Otto, hum, a coisa mais fácil é encontrar ele na Conde da Boa Vista, pelo amor de Barrabás, faz tempo que não mora em PE; as únicas atrações que podemos chamar de Pernambucanas mesmo são o Eddie e o Maracatu Piaba de Ouro, até porque a Globo não é doida de fazer um festival de musica pernambucana sem maracatu, o que Ariano Suassuna iria dizer?
Então, está aí o resumo da ópera: As bandas de Pernambuco são cada dia menos daqui, por quê em Pernambuco quem dá dinheiro é o Estado. O Estado demora a pagar e só paga três ou quatro vezes por ano e com atraso. Então, essa turma, migra para o sul e suldeste do país para ver se conseguem comprar um carro popular. As bandas que ficam aqui, só conseguem fazer algo se mendigarem dinheiro público para gravar um disco ou fazer uma turnê. Para, logo em seguida, fazer o mesmo que as bandas antes citadas, ir embora. Pois aqui, o público não paga mais do que R$ 10 em ingresso para ver ninguém, já que podem ver todos de graça duas ou três vezes por ano.
Entendeu, que beleza é o nosso mercado fonográfico?
Salve, salve o quintal da Mãe Fundarpe!!!
Bom festival para quem for!
Não vou me alongar, ainda tinha um bocado de coisa pra falar sobre isso. Mas esta sexta-feira está linda, em Olinda, e minha lata de Pitú já deve estar gelada.
Até!
Cadê teu censo e senso de humor?

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